... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...


tuda.papel.eletronico@gmail.com

Em associação com Casa Pyndahýba Editora

Ano I Número 7 - Julho 2009

Editorial

Clonmacnoise, Co. Offaly, Republic of Ireland

Foi só trocar um “n” por um “l” que a TUDA já está em seu sétimo mês – Samhradh! Samhradh! [Verão, em Irlandês] – e que Júlio César nos perdoe, mas viva o calendário tudiano!

Para algumas religiões Neopagãs, o calendário Celta era como os povos interagiam com o khrónos, baseados vagamente em rituais da Irlanda Medieval - basicamente os 4 Festivais Gaélicos do Samhain, Imbolc, Beltane & Lughnasad. Atravessamos o Lughnasad, também conhecido como Lammas ou Festival da Primeira Colheita, dia sagrado no paganismo, que simboliza o fim do Verão (remotamente o Verão era marcado pelos meses de Maio, Junho e Julho). E neste mês – pagão ou não! – TUDA colheu MUITA coisa boa, já que as trombetas tudianas andaram soando em sítios distantes – se é que se pode dizer que algo é distante na redinha – e andam cada vez mais despertando a curiosidade de muita gente bacana – que é TUDA o que a gente queria!

A TUDA deste este mês traz o verbo de Arnaldo Xavier, Souzalopes, Luiz Roberto Guedes, Santiago de Novais & Dorival Fontana em Palavras Quebradas. Já nas Palavras Contínuas, traz Ivana Arruda Leite, José Geraldo de Barros Martins, Afobório, e José Miranda Filho. Em Palavras Alheias, o romeno Iulian Boldea. Em Foreign Words, Mário Quintana, e nas Palavras Já Ditas, uma homenagem ao mineiríssimo Dantas Mota. Em Palavras Mostradas, as ilustrações de Aristides Klafke & José Geraldo de Barros Martins, além da foto de Matilde Damele nA Mente Pela Lente. Na seção Palavras Antigas, Roniwalter Jatobá comanda a coluna Memória.

E é isso! Aprecie TUDA SEM NENHUMA MODERAÇÃO. Ela não faz mal. Apenas é contra a INDIFERENÇA!!!

Na luta, companheiros... e TUDA de bom!

Dívida Interna


Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Digitação
Teresa Thinen & Eduardo Miranda

Revisão
Túlia Lopes & Eduardo Miranda

Colaboradores
Afobório, Aristides Klafke, Arnaldo Xavier (in memorian), Dantas Mota (in memorian), Dorival Fontana, Eduardo Miranda, Iulian Boldea, Ivana Arruda Leite, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Luiz Roberto Guedes, Matilde Damele, Roniwalter Jatobá, Santiago de Novais, Souzalopes.

E-mail
tuda.papel.eletronico@googlemail.com

Poesia - Arnaldo Xavier

Aos poucos
Água situa a parte

ilha

A escorrer contraste entre os dedos
Como rio

Aos poucos
Às mãos

a oferta

arreganha a estrada cheia

de pedras

Como espinho

Aos poucos
Às barcas

a encruzilhada

anuncia o cavalo azul

da luz

Como desencontro

Aos poucos
A ameaça imprevisível dor

de espaço

Como pássaro

Aos poucos
A fava revela o mínimo grão

da pétala

como escama

Aos poucos
O passo pesado

da sombra

como luz

Poesia - Souzalopes

Ferdinand Doctolero, "Inuman sa Kiosk", Oil on Board, 183 x 183 cms., 1997

PÍFIO POEMA P/FÚRIO
OU SÓ
UM SÓ QUASE UM
MUITAMENTE FALSO
SONETO
QUE
UM DIA
ESCREVO SÓ PARA SER
OUTRO DIA REESCRITO

  • um dia suponho um onço
    é todo avonço e todo fúrio
    ¿quem tem seu quê no responso?
    ¿quem vê o cu do anuro?
  • ano e outro contramuro
    bem torto me geringonço:
    pomba poente na escura
    asa do azar e esconso

  • se cacos colo de mim
    estupro e estripo a fé
    que nunca me (h)ouve no fim

  • foda-se o mundo – meu pé
    foi triste pedra no rim
    da quebra do meu qualé

Poesia - Luiz Roberto Guedes


sexmart

ela espicha a longa língua
lasciva & lambe a própria
axila ruiva & logo

elástica ginasta
chupa com volúpia
jocosa o dedão do pé

suga o mamilo róseo
dedilha unhas lábios
vermelhos descerra

na sarça o sorriso
rubro da corola
úmida mordente

cum inside

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or fuck off

(in antologia poética Oitavas, 8 poetas, selo Demônio Negro, São Paulo, 2006)

Poesia - Santiago De Novais


cantata para o outro lado
pra ele e.p.

Estes são os poemas turcos
Eu falo curdo
Eu falo e escuto areia.
Estes são os poemas chineses
Eu rasgo a seda
Eu me comporto como nuvem.
Ando na corda bamba,
Por isto faço poema.
O poema é meu bambú pros pandas.
E, para quem escuta a seda,
Escuto os surdos e pessegueiros.
Nunca amei.
Nunca amém.
Nem lei.

Poesia - Dorival Fontana

Camille dela Rosa, "Portrait of Anatomy", Oil on Canvas, 122x91cm., 2009

Estereótipo

Belezas extravagantes
São ousadas, são usadas,
Flutuantes.
Desfilam, disfarçam
Seus passos.
Dissecam os pedaços
Do todo, do nada,
Deformado.
São corações distantes
Sem fala.
São corpos dançantes
Sem alma...
Suados, abusados,
Eletrificados
Pelo som, pelo tom
Cinza metálico.
Não há rosto!
Não há gosto!
São só carapaças.
Beijos e abraços
Resguardados...
Um adeus abreviado.

Conto - Ivana Arruda Leite


O carro de Toninha

Toninha quis comprar um carro, foi lá e comprou. O que guardou do salário de faxineira deu certinho pra comprar um fusquinha 68. Vermelho? Bordô? Roxo? Um pouco de cada. Eram muitas as cores, as marcas de batida, capotamento, ferrugem. Medalhas conquistadas ao longo de muitos anos. Um carro com a história visível, inscrita na lataria.

Feliz da vida, Toninha voltou pra casa de carro novo. Ela, no banco do passageiro, o marido dirigindo. Toninha nunca teve cabeça pra tirar carta. Além do mais, era analfabeta. Mas obrigava o marido a levá-la para onde quisesse. Supermercado, Santos, feira, casa da sogra, tudo de carro. Toninha indicava o caminho e o marido guiava, de saco cheio. Mas ela era A Dona do carro, podia mandar em ambos.

Um dia o marido sumiu de casa com o carro de Toninha. Três dias, quatro e nada de notícia. No emprego, disseram que ele estava de férias. “Eu mato esse desgraçado, andando por aí com o meu carro e, provavelmente, com uma vagabunda dentro”.

Toninha foi à delegacia e deu parte. Não do sumiço do marido, mas do roubo do carro. “Um carro como esse é fácil de achar”, disse o delegado. E foi mesmo. No dia seguinte, o marido foi encontrado na Praia Grande. Voltou puto da vida.

-- Porra, você nem dirige, pra que quer esta bosta de carro?

-- Não dirijo, mas quero o carro parado aí na porta, pra enfeitar. Vou encher ele de samambaia.

O marido foi embora a pé. Maria Luísa o esperava no ponto do ônibus. O carro foi devorado pelas samambaias. Acabou apodrecendo dentro delas, feito um xaxim.

Conto - José Geraldo de Barros Martins


Como será que eu vou ficar... Cortar jaca na cidade não é mole não

Apesar da coincidência entre o título deste conto e a frase inicial de uma canção que o ex-mutante Arnaldo Dias Baptista compôs enquanto viajava a pé entre São Paulo e Catanduva, os motivos que levaram nosso personagem a ostentar a placa e a camiseta com os supracitados dizeres são bastantes diversos.`

Teobaldo Domênico, era um "chaveiro-e-eletricista" residente na Rua Rocha, no tradicional bairro do Bexiga. Cidadão simples, apreciava as mesmas coisas que seus inúmeros conterrâneos, ou seja, o samba e o futebol.

Uma tarde, enquanto caminhava ao lado da escola de samba Vai-Vai, o nosso protagonista foi atingido por uma bola de futebol perdida. O violento petardo fez com que caísse batendo a cabeça sobre o passeio público, ficando minutos inconsciente.

O que realmente ocorreu neste curto intervalo de tempo é o mais completo mistério, porém quando ele acordou, começou a dizer que recebera instruções de uma entidade astromental ectoplasmática, cujo nome não poderia revelar, mas que seus ensinamentos logo seriam amplamente conhecidos.

Semanas após o incidente, era fundada no bairro de Vila Nova Cachoeirinha o primeiro templo da Igreja do Avatar Tropical, seita que misturava conceitos do Integralismo de Plínio Salgado com as idéias contidas no filme "Idade da Terra" de Glauber Rocha (o surgimento da figura de Cristo no terceiro mundo). Com um verniz esotérico e uma retórica de comentarista esportivo (do estilo mesaredonda), chegou-se a uma teoria bastante original: Da mesma maneira que o Sol nasce no leste e repousa no oeste, o surgimento de avatares ao longo da história obedece a um esquema semelhante, primeiro os avatares do extremo oriente (Krishna e Buda), depois os avatares do oriente médio (Jesus e Maomé) e finalmente o surgimento de avatares no continente americano, mais especificamente no território brasileiro.

O curioso templo constituía-se de uma oca de sapé, construída sobre o grande círculo de um campo de futebol, no qual os espaços internos das traves eram preenchidos por diversos televisores amontoados. Nos quatro escanteios foram plantadas jaqueiras, simbolizando as quatro qualidades do homem brasileiro (brutalidade, ignorância, indolência e sarcasmo), em torno das quais eram realizados rituais de transe elemental.

Não sei qual foi a chave do sucesso da Igreja do Avatar Tropical, talvez a arquitetura exótica dos templos, talvez o fato das pessoas que ministravam os cultos estarem trajadas com a camisa da seleção canarinho, ou talvez o fato das canções religiosas misturarem jovem guarda com maracatú, o que se sabe é que em poucos anos haviam diversos templos nos mais distantes locais da paulicéia:Vila Nhocuné, Parque Arariba, Sapopemba, Parelheiros, Vila Prudente, São Miguel Paulista, Morro do Querosene, Pirituba, Casa Verde, Vila Anastácio, Parque Herculano, etc.

Após esse período de sucesso retumbante, era chegada a hora dos adeptos receberem a primeira iniciação. Teobaldo Domênico (que a essa altura já dialogava constantemente com a entidade astromental ectoplasmática), ouviu desta, instruções enfáticas sobre a necessidade de que os emissores de TV (que estavam sob as metas dos diversos gramados) passassem a exibir exclusivamente cinema nacional (de preferência filmes da Atlântida, Cinédia, Boca do Lixo e do cinema Novo e Marginal) ao invés da programação comum. - "Só aí então é que eles poderiam passar pela iniciação".dizia o seu mestre aureolado.
Semanas após nosso amigo ter posto em prática esta diretriz, os diversos templos da Igreja do Avatar Tropical estavam completamentes abandonados, sendo que Teobaldo teve que vender os televisores, depois os terrenos (*). Como o dinheiro arrecadado com estes eletro-domésticos e imóveis não é eterno, nosso protagonista hoje mora em uma oca, no centro do único campo de futebol que lhe restou, e fatura alguns trocados vendendo em semáforos, as jacas que planta em seu extenso quintal.

Na última vez que conversou com seu guru etéreo, o atual micro-agricultor e vendedor ambulante ouviu a seguinte explicação: - "Sabe, na verdade, o sucesso da sua igreja não era nem a arquitetura original, nem os trajes do escrete canarinho, nem a mistura de ritmos musicais diversos. talvez as pessoas só quisessem ver novela."Após pronunciar esta frase a entidade astromental ectoplasmática seguiucavalgando para o além.

(*) Em um destes terrenos, Lette Annsain't criou o Saci Futebol Clube, sendo que os frutos das jaqueiras serviram para que fossem treinadas cobranças delateral pelos futebolistas iniciantes.

Conto - Afobório

Antes de Dormir.


Diana era contorcionista. Gostava de arrepiar a platéia com a sua espinha de serpente e seus olhos cor de mel. Em pouco tempo, era sucesso no circo. O público a amava e a sua doçura e o seu talento também conquistaram o dono da companhia. O homem a olhava no picadeiro e tinha certeza de que a queria. E por isso, passava as noites a espreitar o motorhome onde a artista dormia. Ele chegava até a porta sempre, e na hesitação escolhia a janela.

Embora a abertura retangular fosse bem pequena e um tanto alta do chão para o tamanho do olheiro, o mesmo apoiava os pés sobre a roda e alcançava a verticalidade exigida. Com uma mão mantinha o equilíbrio e com a outra se estimulava. A posição incômoda gerava uma câimbra horrível, daquelas que endurecia o tendão por toda a perna, e mesmo assim ele agüentava.

Normalmente chegava às 23h, quando Diana já estava nua, pronta para o banho. Ele via aqueles cabelos soltos e imaginava os mesmos cachos a lhe cutucar o peito enquanto a musa lhe cobria de amor. Era uma fascinação. Via que a linda e esguia garota bebia uma pequena dose. A garrafa sobre a mesa sugava a iluminação e a cereja fazia papel de ilha no universo daquele Martini seco a relaxar toda aquela delícia de mulher.

Ela andava de um lado para o outro, dançava e abria os braços e ouvia Soul. Era tão encantadora e açucarada, que enquanto requebrava o corpo, transformava a solidão em espetáculo divinal para seu apreciador. Embora fosse uma situação inusitada, ela não sentia medo, achava até romântico.

Sua única precaução era chavear a porta e deixar sua arma bem próxima e carregada, caso houvesse algum problema ela poderia se defender muito bem. Sentia um prazer enorme em saber que era espiada e não conseguia parar com aquele jogo. E nem mesmo o fato de desconhecer a identidade e a periculosidade do homem a castrava, por que a sensação de ser venerada enchia seu peito de satisfação tanto quanto os aplausos vindos da arquibancada embaixo da lona colorida de amarelo, verde, vermelho e azul.

A mulher bebia e fumava em pêlo e fazia questão de mostrar seu sexo. Quando sentava, inclinava o corpo para o lado e deixava tudo que pudesse em total posição de exposição. Ela passava sua unha comprida sobre sua cocha e fazia o cara na janela se arrepiar nuca abaixo.

Ela esperava pelo gemido do homem, e algum instante depois do grunhido acendia um cigarro; dava duas ou três fumadas, largava o enfumaçado no cinzeiro e ia para o banheiro. O clima proporcionado pela luz brincava com a imaginação do dono do circo, que via aquele ambiente aconchegante e decorado pela luxúria, tudo isso, graças à pequena janela que enquadrava totalmente a porta do banheiro aberta, e aquela silhueta perfeita de mulher a receber bons pingos sem nenhuma vergonha. A impressão do velhote era de que a água resfriava a pele da artista e incendiava a sua.

Quando Diana saía da ducha, vinha para frente do sofá ainda molhada, bebia mais um gole e depois espojava o corpo. Ali, ela permanecia um bom tempo, a derramar pequenos fios de álcool sobre seu corpo limpo e branco. Era uma provocação sem tamanho, e aos poucos começava a tocar o próprio sexo. Em segundos estava em pleno orgasmo, isso deixava o observador mais maluco ainda.

Depois, cansada da brincadeira, dormia ali mesmo, sem dar importância ao homem pendurado na janela. Ela sentia uma liberdade, um valor que a tocava no coração e no sexo, por isso gostava tanto da situação. Pela manhã, acordava disposta e feliz, e andava por entre os homens a encará-los nos olhos, não por que queria descobrir o seu espreitador, mas sim para agradecer e garantir aplausos dentro e fora do picadeiro, enquanto ela, só ela se auto-amava de verdade.


Afobório é o editor do e-blogue.

Crônica - José Miranda Filho

A Fazenda Ideológica


O sítio evoluiu e se transformou na Fazenda Tijucussú. Prosperou bastante nas ultimas décadas. Do barro e do sebo, à indústria automotiva. O desenvolvimento extraordinário obrigou colonos fundadores e descendentes a esquecerem suas identidades e se alojarem no ostracismo involuntário induzido por novos gestores. Órgãos gerenciais foram criados, de modo a imprimir maior dinamismo à administração, com inclusão de propostas irrealizáveis e enrustidas de falsas promessas, com objetivo de continuidade por meio de administração apadrinhada, afim de perpetuar a memória de quem um dia se viu obrigado a abandonar sua pátria, fugindo da guerra e da fome, aportar nessas bandas além-mar, enriquecer-se e viver livremente. A argila e o sebo faziam parte do projeto inovador. A plantação da mandioca, inicialmente proposta pelos colonos, não vingou. Produziu apenas oito safras, motivada pela escassez de mão-de-obra astuciosa e especializada. A natureza negou-lhe o intento e a razão, soberanas justificativas. Entretanto, o gado vindo de regiões setoriais e reproduzido por meios artificiosos deu cria e o rebanho se expandiu, não tanto quanto desejado, nas parcas terras. Tentou-se criar vacas leiteiras em currais adredemente preparados para dar sustento aos colonos e seus familiares. Porém, por imposição de alguns colonos desaforados que viam no projeto futuros entraves aos seus interesses particulares, o plano não se consolidou. Restaram a argila, o sebo e o automóvel. A indústria automotiva impulsionada pela criatividade e qualidade de gestão estrangeira e coadjuvada pela mão-de-obra nativa, contratada sem qualquer vínculo administrativo com a fazenda, cresceu e se projetou pelo mundo afora. A matéria-prima da argila e do sebo, à revelia de alguns colonos, se transformou em produtos essenciais ao desenvolvimento social e populacional da estância. Entretanto, devido a voraz sagacidade de permanecer à frente da administração, o novo gestor contratou dezenas de colonos sem função específica, apenas para dar impulso à continuidade do projeto inicial. Do imenso pomar, sutilmente cuidado, colheram-se frutos saborosos. O laranjal floresceu, se expandiu e se transformou na maior riqueza extrativa da fazenda, seguida do limoeiro amplamente utilizado no preparo de “drinks”para incastos degustadores de suas qualidades. De aspecto verdejante, crosta fina e lustrosa, é o limão muito valioso e aceito entre milhares de brasileiros por suas qualidades extra medicinais. Contudo, há de ter certas precauções ao descascá-lo, mormente àqueles ávidos consumidores que ignoram seus efeitos devastadores.

Produzia-se de quase tudo na fazenda. Financiamento para o desenvolvimento, jamais deixou de ser solução. Chegava às pencas, e de qualquer lugar. Até que um dia... um dia sempre houve e certamente sempre haverá na vida de qualquer administrador a atrapalhar os planos. A argila e o sebo deixaram de ser produtos principais. Os recursos escassearam e a produção desabou. Dizem alguns que por falta de transparência nas compras, enquanto outros aduzem o apadrinhamento, e há até quem afirme ter sido pelo nepotismo imoral que seduz milhares de gestores públicos. O projeto sofreu revés irreparável. Demissões, principalmente de peões, tornaram-se necessárias, enquanto outras funções antes jamais ocupadas por falta de serventia, foram extintas, em detrimento da quantidade de cargos criados e altamente remuneradas a serem ocupadas por “faz de conta”. Esse fato se tornou notório e todos tiveram conhecimento. Mal grados os acontecimentos e algumas informações que são obstadas, a fazenda continuou produzindo seus frutos, cuja colheita se concentrou na laranja e no limão, únicas espécies que florescem abundantemente e não dependem da previsão do tempo.

Tradução - Eduardo Miranda

Iulian Boldea nasceu a 2 de março de 1963 em Ludus, Condado de Mures. Doutorado em literatura romena, leciona na Petru Maior University em Mures. Tem vários livros de poesia e crtica publicados, e é contribuidor nas principais revistas literárias da Romênia ("Romania Literara", "Luceafarul", "Tribuna", "Familia", "Poesis", "Euphorion", "Convorbiri Literare", "Echinox", "Cuvantul", "Vatra", "Tarnava").

Por dentro

jarro de vidro fosco
inquietas camadas de pó de madre-pérola
tristes adereços da alma,
depositadas na iridescência melancólica dos mognos
sons da infância se esvaindo aos poucos
fotos de pessoas de muito tempo atrás
dentre as quais a impotente memória
não é capaz de encontrar qualquer gesto inacabado
um beijo que não aconteceu
uma palavra que não foi dita
daqueles que hoje em dia
não estão mais entre nós.

Interior

vaza de sticlă mată
pe care neliniştile se depun ca un strat de praf sidefiu
bibelouri cu sufletul trist lângă
irizările melancolice ale mobilei de mahon
în care sunetul copilăriei se toceşte treptat
şi fotografiile de demult
în care memoria neputincioasă nu mai poate găsi
vreun gest neterminat
vreun sărut neîntâmplat
vreo vorbă nespusă
de cei care acum
nu mai sunt.

Onda

rastro de espuma
das ondas
praia
pontilhada
de ilusões...

Valul

dâra de spumă
a valului
pe plaja
presărată
cu iluzii...

Foreign Words - Mario Quintana


The Contra Little Poem
by Eduardo Miranda

All of those who may
Forbid me to fly:
They will pass away...
I'm passing by.

Poeminha do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho
Eles passarão...
Eu passarinho.

Releitura - Dantas Mota


José Franklin Massena de Dantas Mota (1913-1974), nasceu em Carvalhos, na época município de Aiuruoca, no sul de Minas. Formou-se em 1938 na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais. Viveu sempre em Aiuruoca, mas mantinha contato com escritores no Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Amigo de Carlos Drummond de Andrade, Dantas Mota desenvolveu uma poesia por vezes cerimonial e profética, devido suas leituras bíblicas e jurídicas, além de sua clara raiz mineira.

A respeito de Dantas, Drummond dizia que sua poesia dava idéia de solidão - solidão e desconsolo que parece penetrar nas pessoas e nas coisas. Um desconsolo e uma revolta diante dos desacertos do mundo...

Canção Do Exílio

Alma,
Pássaro solitário,
Como é difícil abranger-te!
Nem sei como defender-te,
Incomensurável que és.
Num só crepúsculo,
Passeias todas as paisagens,
Visitas todas as terras,
E te recolhes triste
À morada que te serve
De cárcere...

Ilustração - Aristides Klafke

Ilustração - José Geraldo de Barros Martins

Capa - José Geraldo de Barros Martins

A Mente Pela Lente - Matilde Damele


Tompkins Square Park, NY

Memória - Roniwalter Jatobá

O palco da metrópole

breve história do Teatro Municipal de São Paulo, construído numa época de ampla reestruturação urbanística da cidade
Um escândalo! Durante as noites de 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, um movimento de renovação artística e literária agita a cidade de São Paulo. Era a Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal, o templo cultural da elite bem-pensante da época. Para Paulo Prado, fazendeiro de café e um dos idealizadores da semana, junto com sua mulher Marinetti e o pintor Di Cavalcanti, o objetivo era "assustar essa burguesia que cochila na glória de seus lucros." Na noite inaugural, após discurso do escritor Graça Aranha, dos apartes de Oswald de Andrade ("Carlos Gomes é horrível"), entre vaias e insultos da platéia, declamaram-se poesias. No luxuoso saguão de entrada, exposição de pinturas e esculturas de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Brecheret, Goeldi e outros. No último dia, o compositor Villa-Lobos encerra a semana, que seria definida posteriormente pelo escritor Mário de Andrade como "uma bruta sacudidela nas artes nacionais".

Na época, público e imprensa não entenderam assim. Ao incômodo dos versos sem rima e dos "disparates cabeludos" somou-se a indignação com a utilização anárquica da mais importante casa de espetáculos de São Paulo, onde a burguesia paulista se encontrava nas noites de gala para prestigiar as óperas e companhias dramáticas vindas da Europa.

Cultura do Café

O Teatro Municipal, na verdade, significava o desenvolvimento que atingia São Paulo desde a última década do século passado, representado pela cafeicultura e o alvorecer industrial. Com o surto de progresso, era hora de sonhar em ter uma casa de espetáculos em condições de receber bem as companhias teatrais que chegavam à cidade. Habituada ao Alla Scala, de Milão, ao L'Operá, de Paris, ou ao Covent Garden, de Londres, a elite torcia o nariz para os palcos paulistanos. O Teatro Politeama, inaugurado em 1892, embora de ótima acústica, "não passava de um enorme barracão". O Teatro Minerva, que sofrera várias reformas desde sua inauguração em 1873, "já não tinha condições de oferecer um mínimo de conforto às famílias que o freqüentavam".

Desde 1895, havia o desejo de construir um teatro oficial para São Paulo. A primeira iniciativa partiu da Câmara Municipal, que apresentou seguidos projetos convocando interessados na "construção de um ou dois teatros". Mesmo oferecendo ao vencedor da concorrência o privilégio de isenção de impostos pelo período de dois anos, depois vinte, e, finalmente, cinqüenta anos, os endinheirados preferiram investir na indústria ou em outra cultura, a do café. Por fim, os poderes públicos resolveram desapropriar uma chácara no início da rua Barão de Itapetininga, de propriedade do coronel Antonio Proost Rodovalho, por 692 contos de réis. Na época, a região era chamada de "centro novo", ligada ao "velho centro" (o triângulo) pelo viaduto do Chá, obra de 1892. A cidade, então com 250 mil habitantes, se expandia em várias direções. A leste, a baixada do Brás, com a estação do norte e a Hospedaria de Imigrantes, rapidamente se transformava em bairro de pequeno comércio e reduto do operariado. A Estação da Luz, ao norte, era outro centro de atividade, sendo os terrenos aí também ocupados pelas classes mais pobres. Eram subdivididas as chácaras dos bairros de Santa Ifigênia e Campos Elísios, local de moradia da elite em ascensão. Havia ainda a ocupação progressiva do bairro de Higienópolis e avenida Paulista, seguindo depois até os Jardins.

Celeuma da Imprensa

Enquanto isso, discutia-se a denominação do teatro. Alguns pretendiam teatro São Paulo e outros, Municipal. Antonio Prado, prefeito da capital, nomeou a Comissão Construtora, sob a direção de Ramos de Azevedo. Integravam a comissão: Domiziano Rossi, que trabalhava no escritório de Ramos de Azevedo, e Cláudio Rossi, cenógrafo. O engenheiro-arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1928), com formação profissional na Europa, dispensava apresentações. Agente decisivo no estabelecimento da nova imagem de São Paulo, já havia erguido, entre outras obras, a Escola Politécnica, no bairro da Luz, a Escola Normal, na praça da República, e o Liceu de Artes e Ofícios, de onde sairia o mobiliário do futuro teatro. Vaidoso e pouco propenso a dividir glórias, o arquiteto teve que enfrentar o protesto dos Rossi, co-autores do projeto do Municipal. Um deles descobriu que na placa inaugural confeccionada não constava o nome dos auxiliares. Acabou provocando uma celeuma nos jornais e obrigou a municipalidade a gravar outro bronze, corrigindo o erro que ficaria para a posteridade.

Brio Paulistano

Foi na administração de Antonio Prado (1898 a 1910) que São Paulo começou a ganhar novos espaços e seu aspecto de metrópole. A palavra de ordem era remodelar a cidade, mudar seus ares de província, tal como acontecia na Capital Federal (Rio de Janeiro), onde se abriam avenidas e praças. Os cariocas, por sinal, já haviam iniciado a construção do seu teatro Municipal, inaugurado em 1909, o que mexia com o brio dos paulistas.

Além de iniciar obras de saneamento, Antonio Prado ajardinou, em 1904, a praça da República, que o ex-presidente da província, João Theodoro Xavier, havia regularizado em 1872, quando esta se chamava largo dos Curros e era o local onde circos ambulantes exibiam tourada. Remodelou também o Jardim da Luz e o largo do Paiçandu, contratando os serviços de urbanistas europeus. Abriu a avenida Tiradentes, dando acesso a toda a zona norte da cidade, arborizou e pôs calçamento em diversas ruas. E foi ainda Antonio Prado quem alargou o pátio do Rosário no começo da rua São João, criando uma praça próxima do triângulo, em que se instalaram confeitarias freqüentadas pelos elegantes. O prefeito não permitiu que fossem erguidas cercas na nova praça da República, embora os aristocratas protestassem, pois, no tempo do Império, os melhores jardins eram cercados, para só permitir o acesso à elite. Ainda no final da década montou-se nessa praça uma pista de patinação, que atraía público de diversos bairros. O lazer da maioria da população na época não ia além de jogos de bocha, corrida de cavalo na Mooca, mergulhos e passeios de barco no rio Tietê e apresentações de bandas, como a Corporação Musical Operária da Lapa.

Em 5 de junho de 1903, foi iniciada a construção do Municipal, que teve seu projeto inspirado no "Ópera de Paris". Composto no estilo Barroco, chamado na Itália de "seicento", apelidado de "minestrone neocolonial" pelos modernistas que o sacudiriam tempos depois, o teatro era o maior edifício da cidade. Um dos pavimentos era subterrâneo, e abrigava sistemas de refrigeração e elevação do palco. Vinte e cinco grandes vitrais vieram da Alemanha, a maioria deles fazendo referência à origem grega do teatro -- mesma referência pintada na cúpula do salão nobre. Lá, uma atriz declama num palco criado num carro de bois, ladeada por um ator e um flautista.

Dia da Inauguração

A inauguração foi numa terça-feira, 12 de setembro de 1911. Marcada para o dia anterior, a estréia teve que ser adiada devido ao atraso na chegada dos cenários que vieram da Argentina. Outro contratempo: a apresentação na estréia de uma ópera estrangeira causou um intenso debate. Alguns lembraram que a inauguração do Municipal carioca havia sido aberto com o Hino Nacional, discurso do poeta Olavo Bilac e ópera de Carlos Gomes. Preocupados, os organizadores da festa requisitam forte policiamento, para prevenir invasão do teatro e disciplinar o grande número de veículos. Sob pressão da Câmara Municipal a primeira música ouvida foi o Guarani de Carlos Gomes. A apresentação da ópera de Ambroise Thomas, Hamlet, numa encenação da companhia lírica do barítono Titta Ruffo, foi interrompida ao meio devido ao atraso do programa inaugural. "Esteve deslumbrante a inauguração", registrou a revista Illustração Paulista, de 16/9/1911. "Desde o anoitecer que o teatro estava, interior e exteriormente, feericamente iluminado (...). O Viaduto do Chá estava repleto (...). A grande multidão que se formava a essa hora nas proximidades do teatro dificultou de tal forma o trânsito de carros e automóveis com os espectadores, que alguns somente às 10 horas da noite conseguiram chegar à porta do teatro". O Estado de S. Paulo anotou: "Cerca de trezentos veículos transportam espectadores para o teatro, tendo permanecido aguardando a saída 290 veículos, dos quais 140 automóveis e 150 carros". O cronista social do Correio Paulistano descreveu a festa, principalmente como se apresentaram vestidas as grandes damas da época: "Mme. dr. Jorge Tibiriçá, toilette de calipso de seda marinho (...). Mme. Guilherme Rubião, belíssima toilette de cetim duchesse gris, com voilage de mousseline chanteag, guarnecida de aplicação e franja de vidrinho, sur même nuance".

Celebridades e Povo

A partir daí, o teatro abriu-se para uma série de óperas, principalmente. Os italianos, estabelecidos no Brás e no Bexiga, lotavam o Municipal quando companhias líricas passavam por São Paulo. Em 1916, quando o maior de todos os tenores, Enrico Caruso, começou a cantar, em francês, a ópera Carmem, de Bizet, as colunas do teatro estremeceram com o murmúrio de desaprovação emitido pelo público, exigindo do tenor que cantasse em italiano. Além de óperas, o Teatro Municipal sediava também bailes, como em benefício das vítimas das inundações na Bahia, em 1914, ou em favor dos "belgas desamparados", em 1916, além de banquetes para políticos do PRP (Partido Republicano Paulista).

Ao fim de algum tempo, sendo insuficiente o foyer, a prefeitura fez construir um tablado desmontável, adaptado sobre a platéia, ao nível do palco, servido para grandes bailes e banquetes. Muitos bailes de carnaval realizam-se no teatro, que também abrigou grandes momentos e figuras marcantes para a vida cultural da cidade. A lista das celebridades dá a justa dimensão do Municipal: a dança de Anna Pavlova, Isadora Duncan, Margot Fontayn, o bailarino Mikhail Barishnikov, o pianista Arthur Rubinstein, o maestro Arturo Toscanini, o canto lírico de Maria Callas e Enrico Caruso, o jazz de Ella Fitzgerald, Duke Ellington e Miles Davis, a companhia de dança de Maurice Béjart, o I Congresso Brasileiro de Escritores e o evento que marcou decisivamente a história do Municipal, a Semana de Arte Moderna.

Nos anos 30, o povo sobe as escadarias do teatro pela primeira vez. Foi aberto aos trabalhadores "com grande inquietação dos meios grã-finos pelos estragos que aí podia praticar o homem do povo", relatou o professor Paulo Duarte. "Pois a surpresa foi sensacional: a gente do povo era muito mais educada do que a gente educada! Nunca se verificou um estrago, um desrespeito, durante aqueles espetáculos de música ou de teatro oferecidos especialmente aos operários, com entrada grátis. O teatro regurgitava de uma multidão modesta, mas atenta e respeitosa". Já na década seguinte, são criados seus próprios corpos estáveis: a Orquestra Sinfônica, os corais Lírico e Paulistano, o Corpo de Baile. Resultado: companhias líricas vindas do exterior já podiam chegar menos numerosas, pois havia artistas organizados em São Paulo.

Avanço Tecnológico

Quase centenário, o Municipal passou por importantes reformas. Uma delas foi em 1952, com vistas à comemoração do IV Centenário da cidade, ocorrida em 1954. A reforma, entretanto, acabou somente no ano seguinte. A segunda durou de 1985 a 1991, e, além de recuperar a cor verde original das paredes internas, dotou o palco de elevadores cênicos modernos e uma plataforma elevatória. O sistema de iluminação tomou-se computadorizado, permitindo grande precisão nos efeitos cênicos.

Se vivos fossem, os modernistas certamente apoiariam a grande faxina e os avanços tecnológicos, Mário e Oswald de Andrade à frente. O primeiro foi o idealizador do Departamento de Patrimônio Histórico da cidade, e o segundo sempre teve motivos de sobra para recordar as noites no coração da metrópole. Como na vez em que, "mordido pela tarântula da curiosidade e exaltado pela prosa dos estetas", correu para ver a bailarina Isadora Duncan. Era 1916. "Não sei como nem onde jantei, completamente alienado", conta ele. "Sei apenas que tudo me conduziu, mesmo as pernas, até o Teatro Municipal que esplendia de luzes e de gente. Isadora Duncan estreava em São Paulo (...). O pano se levantou e eu vi a Grécia. O cenário unido duma só cor abria-se para vinte e cinco séculos de mar, montanhas e de céu (...). A voz do piano arquiteturava Gluck. Essa mulher é alga, sacerdotisa, paisagem. Deixei estonteado o teatro, a gente. Perdi-me de novo na cidade".